{"id":5497,"date":"2021-03-17T20:57:19","date_gmt":"2021-03-17T20:57:19","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/?p=5497"},"modified":"2024-07-23T18:40:14","modified_gmt":"2024-07-23T18:40:14","slug":"a-america-em-declinio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2021\/03\/17\/a-america-em-declinio\/","title":{"rendered":"A Am\u00e9rica em decl\u00ednio"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"681\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-1024x681.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5604\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-768x510.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-2048x1361.jpg 2048w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-1568x1042.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-300x199.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-1536x1021.jpg 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-873x580.jpg 873w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-370x246.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-270x180.jpg 270w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-570x379.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-770x512.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/A-America-em-declinio-1170x778.jpg 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A distopia pol\u00edtica dos anos Trump n\u00e3o \u00e9 explic\u00e1vel como um mero acidente eleitoral numa democracia, como uma escolha absurda de cidad\u00e3os mal informados. Vai al\u00e9m das causas imediatas, como o perigoso populismo demag\u00f3gico e manipulador de Donald Trump. \u00c9 tamb\u00e9m o resultado de uma conjuga\u00e7\u00e3o extraordinariamente negativa de circunst\u00e2ncias pol\u00edticas, econ\u00f3micas e identit\u00e1rias, s\u00f3 apreens\u00edvel olhando para os sinais de tens\u00f5es e decl\u00ednio da Am\u00e9rica das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>1. <\/strong>Poderia ter sido uma cena de um enredo dist\u00f3pico de um filme de Hollywood passado numa Am\u00e9rica quase irreconhec\u00edvel. Poderia ter sido tamb\u00e9m um epis\u00f3dio ficcional da Marvel com as suas in\u00fameras hist\u00f3rias fant\u00e1sticas de super-her\u00f3is bizarros (Batman, Homem de Ferro, Super-Homem, etc.) que actuam numa Am\u00e9rica e num mundo repleto de poderosos vil\u00f5es e de justiceiros incorrupt\u00edveis. Mas o&nbsp;<em>reality show<\/em>&nbsp;que foi a Presid\u00eancia Donald Trump, um<em>entertainer,<\/em>&nbsp;provocador e governante de fac\u00e7\u00e3o, acabou num real e absurdo cl\u00edmax de pesadelo: o assalto ao Capit\u00f3lio pelos seus partid\u00e1rios extremistas do&nbsp;<em>Make America Great Again<\/em>&nbsp;(MAGA), que se v\u00eaem como defensores da ordem contra a corrup\u00e7\u00e3o e anarquia da Am\u00e9rica liberal e dos Antifa (movimento antifascista). Apesar do ins\u00f3lito que foram os seus anos no poder, Trump conseguiu deixar estupefactos os amigos e os aliados dos EUA e todos aqueles que se habituaram a admirar as suas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Para al\u00e9m da atitude de enorme irresponsabilidade democr\u00e1tica e politicamente (muito) perigosa deste Presidente \u2014 que, com as reiteradas acusa\u00e7\u00f5es de fraude eleitoral feitas sem provas substanciais, encorajou os seus apoiantes mais radicais a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/01\/07\/mundo\/video\/assalto-capitolio-filme-acontecimentos-20210107-170115\">tomarem de assalto o Capit\u00f3lio<\/a>&nbsp;\u2014, h\u00e1 uma longa engrenagem de fractura e decl\u00ednio da Am\u00e9rica. Para a compreender n\u00e3o basta olhar o imediato, nem os anos turbulentos do Governo de Donald Trump. Existe um problema estrutural mais profundo e multifacetado pelos motivos que vou explicar em seguida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong>&nbsp;H\u00e1 30 anos, na imagem da Am\u00e9rica vencedora do final da Guerra Fria, a generalidade do mundo viu a mais formid\u00e1vel hiperpot\u00eancia da hist\u00f3ria da humanidade \u2014 a express\u00e3o foi popularizada nos anos 90 pelo ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros franc\u00eas da \u00e9poca, Hubert V\u00e9drine. Como sempre aconteceu com as grandes pot\u00eancias ao longo da hist\u00f3ria humana, tal percep\u00e7\u00e3o de poder originou no mundo exterior sentimentos muito ambivalentes de admira\u00e7\u00e3o, de respeito e de vontade de imita\u00e7\u00e3o, mas originou tamb\u00e9m medo, desprezo e um profundo \u00f3dio. No centro desses sentimentos contradit\u00f3rios encontrava-se tamb\u00e9m o&nbsp;<em>american way of life<\/em>&nbsp;projectado pela nascente globaliza\u00e7\u00e3o. Era vista pelos cr\u00edticos mais c\u00e1usticos como um disfarce de uma americaniza\u00e7\u00e3o imposta. Em qualquer caso, para amigos e inimigos, a Am\u00e9rica era, ou parecia ser, uma hiperpot\u00eancia imbat\u00edvel. Todavia, na complexidade interna do seu funcionamento existiam j\u00e1 engrenagens de dissens\u00e3o e de decl\u00ednio em marcha, ainda que poucos se apercebessem da sua real import\u00e2ncia. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, essas engrenagens aumentaram de intensidade e convergiram entre si, originando fortes tens\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f3micas e sociais-identit\u00e1rias. As guerras do Afeganist\u00e3o e do Iraque tiveram tamb\u00e9m a\u00ed um papel que n\u00e3o pode ser ignorado. N\u00e3o trouxeram ganhos estrat\u00e9gicos de relevo para o pa\u00eds (funcionaram at\u00e9 como distrac\u00e7\u00e3o para a ascens\u00e3o da China), mas dissiparam avultados recursos financeiros e provocaram perdas de vidas humanas, como acontece sempre em conflitos militares. A partir de 2016, sob a ac\u00e7\u00e3o de Donald Trump, todas essas tens\u00f5es latentes se tornaram&nbsp;fracturas expostas, mas esse \u00e9 apenas o lado \u00f3bvio e vis\u00edvel da engrenagem de fractura e de decl\u00ednio. \u00c9 necess\u00e1rio alargar a perspectiva de an\u00e1lise e olhar para a Am\u00e9rica nas suas m\u00faltiplas facetas, num per\u00edodo temporal mais longo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong>&nbsp;Provavelmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender a Am\u00e9rica de hoje sem olhar tamb\u00e9m para o extraordin\u00e1rio sucesso que o pa\u00eds teve durante o s\u00e9culo XX. Especial aten\u00e7\u00e3o merece o per\u00edodo entre a I&nbsp;e a II Guerra Mundial, onde passou de um Estado quase ausente das grandes quest\u00f5es internacionais para uma pot\u00eancia dominante e incontorn\u00e1vel na pol\u00edtica mundial. As duas guerras mundiais, que foram essencialmente grandes guerras europeias, tiveram um papel decisivo nessa enorme transforma\u00e7\u00e3o. Enquanto a Europa \u2014 a \u00e1rea mais avan\u00e7ada do mundo em termos intelectuais, cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos \u2014 se afundava nessas guerras desastrosas, a Am\u00e9rica recebia milh\u00f5es de europeus \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida material, ou fugindo de persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e de lutas b\u00e9licas. Nessas migra\u00e7\u00f5es em massa \u2014 e especialmente devido aos totalitarismos nazi, fascista e estalinista \u2014, uma grande parte da elite intelectual, art\u00edstica, cient\u00edfica europeia deslocou-se para a Am\u00e9rica. Provavelmente nunca na hist\u00f3ria humana um pa\u00eds acolheu um fluxo migrat\u00f3rio t\u00e3o grande de pessoas. Mas em momento nenhum da hist\u00f3ria da humanidade um pa\u00eds recebeu, no meio de um enorm\u00edssimo fluxo migrat\u00f3rio de todos os tipos, tanta gente t\u00e3o altamente qualificada num per\u00edodo t\u00e3o curto de tempo. \u00c9 necess\u00e1rio dizer que a Am\u00e9rica recebeu essa extraordin\u00e1ria injec\u00e7\u00e3o de capital humano qualificad\u00edssimo tamb\u00e9m pelos seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos, pois a atrac\u00e7\u00e3o que exercia no mundo exterior, como terra de liberdade, de bem-estar material e de futuro, era enorme. Todavia, sem qualquer d\u00favida, o imenso salto cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico que os EUA deram, sobretudo entre os anos 20 e 50, tem tamb\u00e9m conex\u00e3o com esse fluxo migrat\u00f3rio. Apenas um exemplo: o Projecto Manhattan, que levou os EUA a serem o primeiro Estado a dispor da bomba at\u00f3mica, provavelmente n\u00e3o teria sido poss\u00edvel sem as migra\u00e7\u00f5es que levaram Albert Einstein, Enrico Fermi e J. Robert Oppenheimer (neste caso, os seus antepassados), entre muitos outros, para a Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong>&nbsp;Essa conjuga\u00e7\u00e3o \u00fanica de circunst\u00e2ncias deu lugar a um poder, influ\u00eancia e prosperidade material \u00edmpares da Am\u00e9rica no mundo. A mem\u00f3ria desse per\u00edodo, ainda muito pr\u00f3ximo temporalmente, projecta-se no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI e cria uma profund\u00edssima insatisfa\u00e7\u00e3o para muitos americanos com o actual rumo do seu pa\u00eds. \u00c9 necess\u00e1rio lembrar que foi nessa altura que as institui\u00e7\u00f5es federais e democr\u00e1ticas, refundadas ap\u00f3s a guerra civil dos anos 1860, se consolidaram e ganharam grande prest\u00edgio interno e internacional. Ao mesmo tempo, a crescente prosperidade material permitiu um optimismo cont\u00ednuo e generalizado na popula\u00e7\u00e3o americana, mesmo entre os mais pobres e desfavorecidos oriundos de sucessivas vagas migrat\u00f3rias. A expectativa era de poderem vir a enriquecer e a ascender socialmente, se n\u00e3o eles pr\u00f3prios, pelo menos os seus filhos.&nbsp;A Am\u00e9rica do p\u00f3s-guerra surgiu tamb\u00e9m numa posi\u00e7\u00e3o internacional \u00fanica, de primazia pol\u00edtica, econ\u00f3mica, comercial e financeira. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) foi fundamentalmente uma cria\u00e7\u00e3o americana. As organiza\u00e7\u00f5es de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o GATT \u2013 Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Com\u00e9rcio), tal como o d\u00f3lar no centro do sistema monet\u00e1rio internacional, s\u00e3o express\u00f5es internacionais dessa posi\u00e7\u00e3o \u00fanica. Por outras palavras, o sistema internacional de institui\u00e7\u00f5es multilaterais foi largamente uma cria\u00e7\u00e3o americana, com ganhos de poder, influ\u00eancia e prosperidade material, mas tamb\u00e9m, naturalmente, com custos para o pa\u00eds. Todavia, muitos americanos sentem hoje que tais institui\u00e7\u00f5es multilaterais internacionais com as quais se identificaram durante muito tempo pela sua matriz americana&nbsp;escapam, cada vez mais, ao seu poder e influ\u00eancia e s\u00e3o um fardo para o seu bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong>&nbsp;Colocando o problema da Am\u00e9rica actual em perspectiva, h\u00e1 tamb\u00e9m uma extraordin\u00e1ria ironia hist\u00f3rica. Tradicionalmente, era comum os europeus menosprezarem a Am\u00e9rica pela sua falta de passado. Comparada com a sofistica\u00e7\u00e3o cultural e hist\u00f3rica europeia, a Am\u00e9rica era criticada pelo seu vazio cultural e pelo seu novo-riquismo confrangedor, sem verdadeiro passado nacional. Os americanos contra-argumentavam com a aus\u00eancia dos terr\u00edveis conflitos nacionais dos europeus; e tamb\u00e9m com a ascens\u00e3o social com trabalho \u00e1rduo, exemplificada no&nbsp;<em>self-made man \u2014&nbsp;<\/em>termo cunhado no s\u00e9culo XIX nos EUA \u2014, em contraste com a estratifica\u00e7\u00e3o e peso dos privil\u00e9gios herdados entre os europeus. Na Am\u00e9rica, podia ser-se algu\u00e9m importante pelo seu pr\u00f3prio valor; na Europa, raramente quem n\u00e3o vinha das fam\u00edlias privilegiadas conseguia ascender socialmente e ser importante. Quanto \u00e0 identidade americana, n\u00e3o era vista \u00e0 maneira das velhas na\u00e7\u00f5es europeias que acabaram por se (auto)destruir em sucessivas guerras. Era um novo e promissor&nbsp;<em>melting pot,&nbsp;<\/em>um caldeir\u00e3o de culturas e de ra\u00e7as que se fundiam numa nova identidade americana (a populariza\u00e7\u00e3o da express\u00e3o deve-se a uma pe\u00e7a de teatro de Israel Zangwill,&nbsp;<em>The Melting Pot<\/em>).  Nessa identidade nacional, o passado dos<em>&nbsp;Pilgrims<\/em>&nbsp;que viajaram &nbsp;em 1620 a bordo do&nbsp;<em>Mayflower&nbsp;<\/em>para se estabelecerem na Am\u00e9rica; dos pais fundadores da Rep\u00fablica (George Washington, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton, etc.) e do Estado federal contra a opress\u00e3o da pot\u00eancia colonial brit\u00e2nica; e das m\u00faltiplas vagas de migrantes (europeus) que se estabelecerem no territ\u00f3rio americano e o expandiram continuamente para oeste at\u00e9 ao Pac\u00edfico eram um passado orgulhosamente partilhado e celebrado. Unia as elites das grandes cidades da costa Leste e Oeste, as popula\u00e7\u00f5es suburbanas e as popula\u00e7\u00f5es rurais da imensid\u00e3o territorial do interior da Am\u00e9rica. Mas essa orgulhosa (auto)imagem identit\u00e1ria desagregou-se ao longo das \u00faltimas tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas e hoje n\u00e3o h\u00e1 nenhuma narrativa nacional amplamente partilhada. A Am\u00e9rica est\u00e1 envolvida numa disputa identit\u00e1ria que parece quase sa\u00edda de uma distopia orwelliana onde&nbsp;\u201cquem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado\u201d. H\u00e1 vis\u00f5es cada vez mais intolerantes e extremadas sobre o que \u00e9 ser americano, as quais s\u00e3o, simplificadamente, a narrativa hist\u00f3rica anteriormente descrita, ancorada no tradicional&nbsp;<em>melting pot<\/em>; e a multicultural, que substitui essa narrativa por m\u00faltiplas narrativas de grupos anteriormente ignorados \u2014 povos ind\u00edgenas, afro-americanos, hisp\u00e2nicos, asi\u00e1ticos, mu\u00e7ulmanos, etc. \u2014 apagando a tradicional vis\u00e3o do passado e transformando os antigos her\u00f3is da hist\u00f3rica americana em novos vil\u00f5es. Assim, a Am\u00e9rica do s\u00e9culo XXI n\u00e3o tem falta de hist\u00f3ria, \u00e9 a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria que a atormenta e divide profundamente. O caso do&nbsp;<em>Black Lives Matter<\/em>&nbsp;e dos afro-americanos, o qual se interliga com o passado da escravatura, convulsiona hoje os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.<\/strong>&nbsp;Por raz\u00f5es simultaneamente pol\u00edticas, econ\u00f3micas e identit\u00e1rias, para muitos americanos a Am\u00e9rica de hoje defrauda a imagem que se habituaram a ter do pa\u00eds e de si mesmos, incluindo as expectativas de bem-estar material e de ascens\u00e3o social. Tudo isso provoca profundas frustra\u00e7\u00f5es que convergem ao mesmo tempo, com grande intensidade. Um caso que merece aqui aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o do sistema pol\u00edtico-partid\u00e1rio, que contraria a ideia de cont\u00ednua renova\u00e7\u00e3o e f\u00e1cil ascens\u00e3o pol\u00edtica e social. No passado, esse foi um dos grandes factores de atrac\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica para muitos. Mas no lugar de um sistema merit\u00f3rio e aberto emergiu uma oligarquia que funciona em c\u00edrculo (quase) fechado. O elevado tempo&nbsp;de perman\u00eancia em cargos pol\u00edticos cimeiros e a idade avan\u00e7ada dos principais protagonistas pol\u00edticos s\u00e3o dois indicadores claros. No Partido Republicano vemos isso, por exemplo, em Mitch McConnell:&nbsp;tem 78 anos, sendo uma presen\u00e7a no Senado desde os anos 80 (chefia desde 2007 os republicanos nessa c\u00e2mara parlamentar). Quanto a Donald Trump, tem 74 anos e chegou a Presidente dos EUA em 2016. Anteriormente, n\u00e3o tinha ocupado qualquer cargo pol\u00edtico a n\u00edvel federal, sendo, nesse aspecto, uma excep\u00e7\u00e3o, o que lhe permitiu seduzir (e iludir) os eleitores fartos do&nbsp;<em>establishment<\/em>. J\u00e1 o seu vice-presidente, Mike Pence, tem 61 anos e est\u00e1 na pol\u00edtica federal desde os anos 2000. No caso do Partido Democrata, quem chefia o partido na C\u00e2mara dos Representantes \u00e9 Nancy Pelosi, actualmente com 80 anos. Ser\u00e1 novamente chefe parlamentar durante os pr\u00f3ximos dois anos, ocupando desde a d\u00e9cada de 80 cargos federais e no Congresso. Quanto ao futuro Presidente, Joe Biden, do Partido Democrata, tem 78 anos e desde a d\u00e9cada de 80 ocupa cargos no Senado e nos c\u00edrculos dirigentes de Washington. Por sua vez, o seu principal rival nas elei\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias, Bernie Sanders, com 79 anos, \u00e9 membro da C\u00e2mara dos Representantes e depois do Senado desde o in\u00edcio dos anos 90. A \u00fanica renova\u00e7\u00e3o, ou a apar\u00eancia dela (veremos), \u00e9 Kamala Harris, que, com 56 anos, chegou ao Senado nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es de 2016 e foi agora eleita vice-presidente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong>&nbsp;O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o sistema pol\u00edtico-partid\u00e1rio com tonalidades olig\u00e1rquicas que dificulta a renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (e a ascens\u00e3o social), nem a fractura identit\u00e1ria que perpassa a Am\u00e9rica. A globaliza\u00e7\u00e3o impulsionada pelas elites do pa\u00eds no final dos anos 80 e d\u00e9cada de 90 provocou significativas rupturas e amplificou as disparidades na sociedade norte-americana. Promoveu a deslocaliza\u00e7\u00e3o de muitos empregos, sobretudo industriais, para o mundo exterior, onde os custos de trabalho eram mais baixos, do vizinho M\u00e9xico \u00e0 cada vez mais poderosa e rival China. Foram assim eliminados milh\u00f5es de postos de trabalho razoavelmente bem pagos e que permitiam progress\u00e3o social e bem-estar para uma classe m\u00e9dia-baixa. Ao mesmo tempo, as cont\u00ednuas vagas migra\u00e7\u00f5es n\u00e3o-qualificadas, agora oriundas do resto do mundo n\u00e3o-europeu, especialmente da Am\u00e9rica Latina pela proximidade geogr\u00e1fica, pressionaram permanentemente os sal\u00e1rios para uma conten\u00e7\u00e3o ou redu\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m disso, a maioria dos empregos que a economia americana criou nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 relativamente mal paga e\/ou prec\u00e1ria. A tudo isto acresceu a crise financeira de 2008 e as marcas profundas que deixou na economia e na sociedade. Assim, as classes m\u00e9dias-baixas suburbanas e as popula\u00e7\u00f5es do interior da Am\u00e9rica est\u00e3o entre os maiores perdedores da globaliza\u00e7\u00e3o. Os maiores ganhadores est\u00e3o sobretudo em Wall Street (banca e sector financeiro) e em Silicon Valley (as grandes empresas de tecnologia ligadas \u00e0 economia digital). Ambos s\u00e3o grandes financiadores dos dois partidos \u2014 os primeiros tipicamente dos republicanos e os segundos esmagadoramente dos democratas. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que entre os milh\u00f5es de americanos que sofreram perdas de bem-estar, que viram as suas expectativas de ascens\u00e3o social interrompidas \u2014 e que sentem os valores culturais e religiosos em que acreditam menosprezados e atacados \u2014, se tenha instalado um sentimento de revolta contra as elites que tradicionalmente governam o pa\u00eds. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 surpreendente que, nessas circunst\u00e2ncias, o centro pol\u00edtico tenha quase desaparecido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.<\/strong>&nbsp;A distopia pol\u00edtica que foi a Presid\u00eancia de Donald Trump n\u00e3o \u00e9 explic\u00e1vel como um mero acidente eleitoral. Nem pode ser s\u00f3 vista como uma escolha absurda de eleitores mal informados numa democracia pluralista onde h\u00e1 liberdade efectiva de escolher quem governa. A compreens\u00e3o do que se passou na Am\u00e9rica vai al\u00e9m das causas \u00f3bvias \u2014 desde logo, o populismo demag\u00f3gico e manipulador de Donald Trump. Vai tamb\u00e9m al\u00e9m do radicalismo ideol\u00f3gico de direita ou de extrema-direita que esteve na origem do assalto ao Capit\u00f3lio. Seria mais simples (e mais f\u00e1cil de ultrapassar) se fosse s\u00f3 assim. \u00c9 uma conjuga\u00e7\u00e3o extraordinariamente negativa de m\u00faltiplas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas, econ\u00f3micas e identit\u00e1rias, na qual republicanos e democratas t\u00eam tamb\u00e9m grandes responsabilidades. A Am\u00e9rica, que nos habitu\u00e1mos a olhar como o Novo Mundo, por oposi\u00e7\u00e3o ao Velho Mundo europeu, evidencia agora o desgaste do passado. N\u00e3o s\u00f3 do passado da sua forma\u00e7\u00e3o como Estado \u2014&nbsp;na&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/11\/01\/mundo\/noticia\/constituicao-virtudes-omissoes-livro-sagrado-america-1937462\">Constitui\u00e7\u00e3o<\/a>, na elei\u00e7\u00e3o presidencial indirecta pelos Estados da federa\u00e7\u00e3o e na quest\u00e3o dos afro-americanos \u2014, mas tamb\u00e9m do seu enorme sucesso internacional, em particular em dois momentos-chave do s\u00e9culo XX: a II Guerra Mundial e a Guerra Fria.  Nesse passado, como foi explicado, uma extraordin\u00e1ria conjuga\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis, particularmente entre os anos 20 e os anos 50, projectou a Am\u00e9rica para uma situa\u00e7\u00e3o \u00fanica de prosperidade material e de poder no mundo.&nbsp;Nos anos 2020 \u2014 veremos como ser\u00e1 a seguir \u2014 a hist\u00f3ria trouxe \u00e0 Am\u00e9rica um amargo processo inverso: uma extraordin\u00e1ria conjuga\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias negativas, internas e internacionais, que a est\u00e1 a fazer declinar. Entre estas \u00faltimas, reveste-se de particular import\u00e2ncia a ascens\u00e3o da China a grande pot\u00eancia global, algo que inevitavelmente ensombra o papel a que a Am\u00e9rica se habituou no mundo. \u00c9 neste contexto particularmente dif\u00edcil, ao qual acrescem agora os efeitos disruptores na sa\u00fade p\u00fablica e na economia da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/coronavirus\">pandemia da covid-19<\/a>, que&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/joe-biden\">Joe Biden<\/a> assume a Presid\u00eancia dos EUA, a 20 de Janeiro de 2021. Veremos como ficar\u00e1 na hist\u00f3ria futura de uma Am\u00e9rica em (in)evit\u00e1vel decl\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, P2 17\/01\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Imagem: iStock \/ RealpolitikMag<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A distopia pol\u00edtica dos anos Trump n\u00e3o \u00e9 explic\u00e1vel como um mero acidente eleitoral numa democracia, como uma escolha absurda de cidad\u00e3os mal informados. 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