{"id":5934,"date":"2024-09-15T13:07:41","date_gmt":"2024-09-15T13:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/?p=5934"},"modified":"2024-09-18T17:26:46","modified_gmt":"2024-09-18T17:26:46","slug":"a-geopolitica-da-transicao-energetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2024\/09\/15\/a-geopolitica-da-transicao-energetica\/","title":{"rendered":"A geopol\u00edtica da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"721\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-1024x721.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6321\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-1024x721.jpeg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-300x211.jpeg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-768x541.jpeg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-370x260.jpeg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-570x401.jpeg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-770x542.jpeg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-1170x824.jpeg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report-824x580.jpeg 824w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/IRENA-report.jpeg 1476w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>1. Entre finais de Outubro e in\u00edcios de Novembro de 2021 as aten\u00e7\u00f5es da opini\u00e3o p\u00fablica mundial ir\u00e3o estar centradas na Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, a qual ter\u00e1 a sua&nbsp;26\u00aa sess\u00e3o&nbsp;(a&nbsp;Confer\u00eancia das Partes&nbsp;\u2014&nbsp;COP 26), em Glasgow, no Reino Unido.1. Entre finais de Outubro e in\u00edcios de Novembro as aten\u00e7\u00f5es da opini\u00e3o p\u00fablica mundial ir\u00e3o estar centradas na Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, a qual ter\u00e1 a sua&nbsp;26\u00aa sess\u00e3o&nbsp;(a&nbsp;Confer\u00eancia das Partes&nbsp;\u2014&nbsp;COP 26), em Glasgow, no Reino Unido. A expectativa \u00e9 que os representantes dos governos ao n\u00edvel mundial possam avan\u00e7ar, em termos de entendimentos pol\u00edticos, no aprofundamento e implementa\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris (2015). Assim, quest\u00f5es t\u00e3o importantes como atingir a neutralidade carb\u00f3nica global at\u00e9 2050, mobilizar os governos e o sector privado para um adequado financiamento da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e promover a coopera\u00e7\u00e3o internacional para enfrentar a crise clim\u00e1tica, v\u00e3o ser o centro das discuss\u00f5es pol\u00edticas e t\u00e9cnicas. Todavia, para al\u00e9m das negocia\u00e7\u00f5es globais sobre o ambiente, as quais t\u00eam grande visibilidade medi\u00e1tica e resson\u00e2ncia na sociedade, h\u00e1 outras facetas importantes \u2014 na pr\u00e1tica cruciais para o sucesso do Acordo de Paris e da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u2014 que usualmente n\u00e3o fazem parte da discuss\u00e3o p\u00fablica. Entre essas facetas est\u00e1 a dimens\u00e3o geopol\u00edtica da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Importa deixar claro um ponto crucial. Nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas ir\u00e1 ocorrer uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica de enorme alcance, com m\u00faltiplas ramifica\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de antecipar, mas que n\u00e3o podem ser subestimadas sob pena de n\u00e3o percebermos o mundo que estamos a criar. Assim, a passagem de um modo de vida humano assente em energias f\u00f3sseis para energias renov\u00e1veis com impactos ambientais neutros, ter\u00e1 consequ\u00eancias que v\u00e3o muito al\u00e9m dos efeitos ambientais positivos que se esperam obter. Estas ocorrer\u00e3o, desde logo, na economia, no emprego, na tecnologia, na distribui\u00e7\u00e3o de riqueza e na pol\u00edtica mundial, sendo dif\u00edceis de discernir na plenitude dos efeitos. Se olharmos para o passado, desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial, vemos que a passagem para uma economia assente em combust\u00edveis f\u00f3sseis, especialmente no petr\u00f3leo durante o s\u00e9culo XX, trouxe impactos inesperados na natureza \u2014 da\u00ed o grave problema ambiental com que hoje nos confrontamos.&nbsp;&nbsp;Mas provocou tamb\u00e9m profundos e imprevistos efeitos no poder, na riqueza e ideol\u00f3gicos. Um caso \u00f3bvio \u00e9 o M\u00e9dio Oriente \u00e1rabe-isl\u00e2mico que adquiriu uma import\u00e2ncia geopol\u00edtica s\u00f3 explic\u00e1vel pelos seus imensos recursos energ\u00e9ticos. Originou a\u00ed uma enorme concentra\u00e7\u00e3o de riqueza em Estados como a Ar\u00e1bia Saudita, o Qatar e os Emirados \u00c1rabes Unidos, entre outros grandes produtores de energias f\u00f3sseis. Impulsionou, de forma surpreendente, a expans\u00e3o do islamismo radical pelo mundo \u00e1rabe-isl\u00e2mico e fora dele, directa ou indirectamente financiado pela riqueza do petr\u00f3leo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>3. Por motivos geol\u00f3gicos, o petr\u00f3leo, o g\u00e1s natural (e tamb\u00e9m o carv\u00e3o), n\u00e3o est\u00e3o distribu\u00eddos uniformemente pelo planeta, mas concentrados largamente em regi\u00f5es espec\u00edficas. O caso mais conhecido e importante \u00e9 o do M\u00e9dio Oriente, como j\u00e1 foi notado. Mas com o enorme rasto de problemas e conflitos geopol\u00edticos que a economia baseada no petr\u00f3leo trouxe, incluindo v\u00e1rias guerras, a passagem para um novo modelo energ\u00e9tico traz um adicional motivo de satisfa\u00e7\u00e3o. Ou assim parece ser, pois h\u00e1 uma interroga\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que at\u00e9 agora n\u00e3o tem sido feita: ser\u00e1 que a mudan\u00e7a vai eliminar a dimens\u00e3o conflitual do acesso \u00e0 energia, levando-nos a um mundo n\u00e3o s\u00f3 mais ecol\u00f3gico como isento de tens\u00f5es geopol\u00edticas ligadas ao abastecimento energ\u00e9tico? Olhando com algum cuidado para o que est\u00e1 a ocorrer, verificamos que a transforma\u00e7\u00e3o em curso para formas de energia renov\u00e1veis est\u00e1 a alterar o mapa da energia a que est\u00e1vamos habituados. Uma nova geografia emerge gradualmente, n\u00e3o s\u00f3 ligada \u00e0 tecnologia e produ\u00e7\u00e3o de equipamentos, como aos produtos naturais necess\u00e1rios para o fabrico das suas m\u00faltiplas componentes (por exemplo, baterias el\u00e9ctricas para autom\u00f3veis, pain\u00e9is solares, turbinas e\u00f3licas, etc.). Esta \u00faltima geografia est\u00e1 a deslocar-se para as \u00e1reas do mundo onde os metais cr\u00edticos e elementos de terras raras \u2014&nbsp;<em>Rare Earth Element<\/em>(REE) \u2014 existem em quantidades abundantes para a sua explora\u00e7\u00e3o. Aqui emergem dois problemas subestimados. Um primeiro \u00e9 o da acessibilidade desses recursos minerais e da potencial escassez de alguns deles, que poder\u00e1 levar a uma competi\u00e7\u00e3o com m\u00faltiplos efeitos econ\u00f3micos e geopol\u00edticos negativos. Um segundo \u00e9 o do aumento da polui\u00e7\u00e3o e danos ambientais que a crescente procura desses minerais ir\u00e1 provocar. Para o cidad\u00e3o comum ocidental tais problemas n\u00e3o existem. Todavia, a realidade \u00e9 outra como mostra o relat\u00f3rio do Banco Mundial&nbsp;<a href=\"https:\/\/openknowledge.worldbank.org\/handle\/10986\/28312\">The Growing Role of Minerals and Metals for a Low Carbon Future&nbsp;<\/a><em>\/&nbsp;<\/em>\u201cO Crescente Papel dos Minerais e Metais para um Futuro de Baixo Carbono\u201d (2017). Como \u00e9 referido na sua conclus\u00e3o (p. 58) \u201cas tecnologias assumidas para preencher a mudan\u00e7a para uma energia limpa (e\u00f3lica, solar, hidrog\u00e9nio e sistemas el\u00e9tricos) s\u00e3o de facto significativamente mais intensivas em materiais em sua composi\u00e7\u00e3o do que os actuais sistemas tradicionais de fornecimento de energia baseados em combust\u00edveis f\u00f3sseis\u201d. Assim, como \u201co futuro da tecnologia verde \u00e9 materialmente intensivo, se n\u00e3o for devidamente gerido poder\u00e1 ser insuficiente para os esfor\u00e7os e pol\u00edticas dos pa\u00edses fornecedores para cumprir os seus objectivos de cumprimento dos objectivos clim\u00e1ticos\u201d (p. 59).<\/p>\n\n\n\n<p>4. Num outro estudo mais recente, agora efectuado pela Ag\u00eancia Internacional de Energia (EIA) intitulado&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.iea.org\/reports\/the-role-of-critical-minerals-in-clean-energy-transitions\">The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions<\/a>&nbsp;\/ \u201cO Papel dos Minerais Cr\u00edticos nas Transi\u00e7\u00f5es&nbsp;para a Energia Limpa\u201d, o qual faz parte do&nbsp;<em>World Energy Outlook<\/em>&nbsp;de 2021, a dimens\u00e3o geopol\u00edtica e estrat\u00e9gica da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica fica ainda mais expl\u00edcita. A\u00ed pode ler-se o seguinte (p. 32): \u201ca cadeia de abastecimento de muitas tecnologias de energia limpa e das suas mat\u00e9rias-primas&nbsp;\u00e9&nbsp;geograficamente mais concentrada do que a do petr\u00f3leo ou do g\u00e1s natural. Este&nbsp;\u00e9&nbsp;especialmente o caso de muitos dos minerais que s\u00e3o centrais para o fabrico de equipamento e infra-estruturas de tecnologias energ\u00e9ticas limpas.&nbsp;&nbsp;Para o l\u00edtio, cobalto e elementos de terras raras (REEs), as tr\u00eas principais na\u00e7\u00f5es produtoras controlam bem mais de tr\u00eas quartos da produ\u00e7\u00e3o global. Em alguns casos, um \u00fanico pa\u00eds&nbsp;\u00e9&nbsp;respons\u00e1vel por cerca de metade da produ\u00e7\u00e3o mundial. A \u00c1frica do Sul e a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo s\u00e3o respons\u00e1veis por cerca de 70% da produ\u00e7\u00e3o mundial de platina e cobalto respectivamente, e a China foi respons\u00e1vel por 60% da produ\u00e7\u00e3o mundial de REE em 2019.\u201d Quer dizer, sendo esses minerais uma componente-chave da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e das cadeias de abastecimento de baixo carbono para as tecnologias renov\u00e1veis, os pa\u00edses onde se encontram passar\u00e3o a ter recursos \u2014 e armas geopol\u00edticas potenciais \u2014 similares ao que actualmente t\u00eam os produtores de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. (A China emerge agora numa posi\u00e7\u00e3o de potencial dom\u00ednio, pela conjuga\u00e7\u00e3o de tecnologia com recursos minerais cr\u00edticos.) Abdicar\u00e3o voluntariamente de usar estrategicamente tais recursos naturais, em prol de um bem global da humanidade? Infelizmente, essa \u00e9 uma suposi\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>5. Como efeito colateral da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, n\u00e3o s\u00e3o apenas os elementos de terras raras e outros min\u00e9rios cr\u00edticos que adquirem uma nova dimens\u00e3o geopol\u00edtica. O mesmo ocorrer\u00e1 com crescente recurso \u00e0 electricidade. A transforma\u00e7\u00e3o implicar\u00e1 redes cada vez mais interligadas a uma escala regional ou at\u00e9 eventualmente intercontinental.&nbsp;Mas essa crescente interconex\u00e3o cont\u00e9m, tamb\u00e9m, riscos significativos do ponto de vista de seguran\u00e7a. A actividade humana normal, a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e a circula\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos autom\u00f3veis ficam quase totalmente dependente dessas redes. Para al\u00e9m de falhas acidentais, n\u00e3o \u00e9 implaus\u00edvel imaginar que, em futuros cen\u00e1rios de tens\u00f5es econ\u00f3micas e ou pol\u00edticas, os cortes de electricidade provocados podem tornar-se um instrumento geopol\u00edtico poderoso. Claro que se imaginarmos um outro futuro \u2014 um mundo ideal \u2014, onde os interesses da humanidade no seu conjunto prevalecer\u00e3o e os recursos minerais e a tecnologia necess\u00e1ria a um mundo descarbonizado ser\u00e3o tratados como bens comuns globais, nada disto acontecer\u00e1. Mas esperar um mundo ideal \u00e9 ut\u00f3pico. A articula\u00e7\u00e3o entre o aumento da produ\u00e7\u00e3o de energias renov\u00e1veis e a retirada de produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 um ponto cr\u00edtico. Para al\u00e9m dos ganhos ambientais para toda a humanidade, h\u00e1 a perda de riqueza e poder de m\u00faltiplas empresas e Estados \u2014 desde logo dos membros da Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo (OPEP). Procurar\u00e3o tirar vantagem da dificuldade em articular o novo e o velho modelo energ\u00e9ticos durante a longa transi\u00e7\u00e3o em curso, manipulando pre\u00e7os e mercados. Se hist\u00f3ria e a natureza humana nos ensinam alguma coisa \u00e9 que a geopol\u00edtica da energia permanecer\u00e1 uma constante no s\u00e9culo XXI, embora sob formas das quais apenas vemos os primeiros contornos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 2\/11\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Imagem: capa do estudo da<a href=\"https:\/\/www.irena.org\/Publications\/2023\/Jul\/Geopolitics-of-the-Energy-Transition-Critical-Materials\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.irena.org\/Publications\/2023\/Jul\/Geopolitics-of-the-Energy-Transition-Critical-Materials\"> IRENA-International Renewable Energy Agency, Geopolitics of the Energy Transition. Critical Minerals (2023)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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