{"id":6270,"date":"2024-09-16T07:53:22","date_gmt":"2024-09-16T07:53:22","guid":{"rendered":"https:\/\/realpolitikmag.org\/?p=6270"},"modified":"2024-09-18T17:26:27","modified_gmt":"2024-09-18T17:26:27","slug":"uma-longa-guerra-de-exaustao-na-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/realpolitikmag.org\/index.php\/2024\/09\/16\/uma-longa-guerra-de-exaustao-na-ucrania\/","title":{"rendered":"Uma longa guerra de exaust\u00e3o na Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6315\" srcset=\"https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-1568x1045.jpg 1568w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-300x200.jpg 300w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-768x512.jpg 768w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-370x247.jpg 370w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-270x180.jpg 270w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-570x380.jpg 570w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-770x513.jpg 770w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-1170x780.jpg 1170w, https:\/\/realpolitikmag.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/unsplash-870x580.jpg 870w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>1. A guerra voltou \u00e0 Europa! Esta frase, dita in\u00fameras vezes ap\u00f3s o ataque da R\u00fassia \u00e0 Ucr\u00e2nia, traduz o enorme choque que gerou a invas\u00e3o de 24 de Fevereiro de 2022. Todavia, n\u00e3o foi apenas o voltar da guerra ao solo europeu que trouxe uma realidade tr\u00e1gica e desconcertante. Todo o quadro mental anterior estava direccionado para que as guerras convencionais do s\u00e9culo XXI,&nbsp;a ocorrerem&nbsp;\u2014 e muitos na Europa achavam isso ultrapassado \u2014, especialmente se feitas por uma grande pot\u00eancia, seriam travadas de forma bem mais futurista e sem as imensas perdas de vidas humanas do passado em sombrias trincheiras, terrenos repletos de minas, ou duelos de artilharia. As guerras ocorreriam apenas com n\u00fameros reduzidos&nbsp;de efectivos no terreno (soldados profissionais), com sofisticada tecnologia de grande precis\u00e3o e poder destrutivo e amplos meios a\u00e9reos convencionais, bem como drones e intelig\u00eancia artificial. Crescentes duelos seriam ainda travados no ciberespa\u00e7o, os quais, em parte, substituiriam as lutas cin\u00e9ticas e a destrui\u00e7\u00e3o material. Ningu\u00e9m estava preparado para uma longa guerra de exaust\u00e3o com centenas de milhares de efectivos conscritos no terreno, ao longo de uma frente de cerca de 1.000 quil\u00f3metros, a terem se ser constante renovados, com m\u00faltiplos esfor\u00e7os de mobiliza\u00e7\u00e3o e de reenvio de novos efectivos, com constantes duelos de artilharia, com trincheiras e linhas defensivas est\u00e1ticas, com centenas de milhares de mortos e feridos de ambos os lados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>2. Talvez n\u00e3o exista nada de mais perigoso para a humanidade do que a ideia de uma vit\u00f3ria r\u00e1pida e decisiva, a baixo custo, numa guerra, conseguida por um g\u00e9nio militar que depois \u00e9 idolatrado como exemplo a seguir. A hist\u00f3ria mostra como o instalar dessa ideia na cultura estrat\u00e9gico-militar de um pa\u00eds est\u00e1 na origem de algumas das maiores trag\u00e9dias da humanidade. Explica muito das guerras de exaust\u00e3o mais devastadoras, desde logo da engrenagem da Primeira Guerra Mundial e da Segunda Guerra Mundial. O que normalmente acaba por acontecer \u00e9 que essa convic\u00e7\u00e3o aumenta o aventureirismo militar e a propens\u00e3o para assumir crescentes riscos, desencadeando guerras inebriadas pela vis\u00e3o de um sucesso r\u00e1pido que deixar\u00e1 os advers\u00e1rios paralisados, sem tempo e capacidade de resposta. O culto do g\u00e9nio da estrat\u00e9gia \u2014 continuador de Frederico II da Pr\u00fassia, de Napole\u00e3o Bonaparte, ou&nbsp;Helmuth von Moltke, entre outros \u2014 que, pela sua vis\u00e3o e lideran\u00e7a extraordin\u00e1ria, tem vit\u00f3rias decisivas numa&nbsp;<em>b<\/em><em>litzkrieg<\/em>&nbsp;(\u201cguerra rel\u00e2mpago\u201d) que&nbsp;desorganiza&nbsp;o advers\u00e1rio atrav\u00e9s do efeito surpresa, do choque psicol\u00f3gico e da velocidade e\/ou poder de fogo obtidas pela concentra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, continua a fazer estragos nossos dias. A R\u00fassia de Vladimir Putin \u00e9 o exemplo mais flagrante dessa narrativa perversa (mas a Ucr\u00e2nia, pelos seus sucessos em repelir os russos em 2022, tamb\u00e9m n\u00e3o escapou \u00e0 ilus\u00e3o da vit\u00f3ria r\u00e1pida e decisiva como agora se v\u00ea). Os sucessos da R\u00fassia nas guerras rel\u00e2mpago da Ge\u00f3rgia (2008), da anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia (2014) e da interven\u00e7\u00e3o na guerra civil da S\u00edria (a partir de finais de 2015) criaram um excesso de confian\u00e7a de que tais sucessos militares seriam (facilmente) replic\u00e1veis. O c\u00e1lculo inicial era de que uma&nbsp;<em>b<\/em><em>litzkrieg<\/em><em>&nbsp;<\/em>levaria a quebrar o poder pol\u00edtico na Ucr\u00e2nia e a instalar em Kiev governantes pr\u00f3-russos, sem dar tempo a que uma coliga\u00e7\u00e3o internacional se formasse para impedir esse desfecho pol\u00edtico-militar. O resultado foi um grande fiasco militar e a gradual transforma\u00e7\u00e3o de uma guerra rel\u00e2mpago de baixo custo numa guerra de desgaste e exaust\u00e3o com elevad\u00edssimas perdas humanas e materiais sem fim \u00e0 vista.<\/p>\n\n\n\n<p>3. H\u00e1 um livro do historiador militar da Universidade de Boston nos EUA, Cathal Nolan, sobre o \u201cfasc\u00ednio da batalha\u201d (The Allure of Battle, Oxford University Press, 2017) que \u00e9 um dos textos mais estimulantes e que mais obrigam a repensar a guerra. A sua leitura&nbsp;\u00e9&nbsp;uma mais-valia, quer para o cidad\u00e3o comum, quer para o especialista militar, contrariando imagens superficiais&nbsp;e belicismos que imaginam interven\u00e7\u00f5es militares r\u00e1pidas e decisivas. Como Cathal Nolan refere na introdu\u00e7\u00e3o, o livro prop\u00f5e-se \u201ccorrigir a mem\u00f3ria p\u00fablica distorcida do lugar da batalha na guerra moderna\u201d, substituindo \u201cas imagens populares da batalha decisiva por uma aprecia\u00e7\u00e3o s\u00f3bria\u201d em guerras \u201cdecididas por combates prolongados que mataram muitas centenas de milhares de pessoas no s\u00e9culo XVIII, milh\u00f5es no s\u00e9culo XIX e dezenas de milh\u00f5es no s\u00e9culo XX. Nestas guerras modernas, travadas em escalas cada vez mais maci\u00e7as para fins cada vez mais totais, por quaisquer meios que a tecnologia industrial e a ci\u00eancia proporcionassem, o desgaste provou quase sempre ser o caminho para a vit\u00f3ria e para a derrota\u201d. Embora escrito antes da invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, ajuda a compreender muito daquilo a que estamos hoje a assistir. Para al\u00e9m de mostrar como a convic\u00e7\u00e3o de uma vit\u00f3ria r\u00e1pida numa batalha decisiva \u00e9, na grande maioria dos casos, uma ilus\u00e3o perversa que alimenta o aventureirismo militar e acaba em longas e destrutivas guerras de desgaste, para al\u00e9m de mostrar ainda que uma vit\u00f3ria militar decisiva \u00e9 incomum, obriga a repensar o que pode significar a transforma\u00e7\u00e3o da guerra da Ucr\u00e2nia num longo conflito de desgaste e exaust\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Mas a quem favorece a transforma\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia numa longa guerra de exaust\u00e3o? Esta \u00e9 a quest\u00e3o mais importante que se pode colocar nesta altura. O que a hist\u00f3ria nos mostra \u00e9 que a larga maioria das grandes guerras \u00e9 ganha pelo beligerante&nbsp;que det\u00e9m o maior n\u00famero de recursos fundamentais de poder. A raz\u00e3o \u00e9 simples: s\u00e3o esses recursos que permitem sustentar uma guerra no longo prazo para al\u00e9m do hero\u00edsmo e vit\u00f3rias t\u00e1cticas, por mais brilhantes que sejam.&nbsp;Todavia,&nbsp;neste caso, a resposta&nbsp;\u00e9&nbsp;dif\u00edcil de dar. Se consideramos s\u00f3 a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia como beligerantes, h\u00e1 uma vantagem clara russa numa guerra de atrito prolongada. Tem uma popula\u00e7\u00e3o que&nbsp;actualmente ser\u00e1 mais de quatro vezes superior \u00e0 da Ucr\u00e2nia (incluindo m\u00faltiplas minorias onde pode recrutar), quer devido aos territ\u00f3rios ocupados no Donbass e Crimeia, quer aos milh\u00f5es de ucranianos que fugiram para o exterior. Tem uma capacidade industrial militar muito superior \u00e0 da Ucr\u00e2nia, n\u00e3o tanto na qualidade, mas especialmente na quantidade de produ\u00e7\u00e3o de muni\u00e7\u00f5es e equipamentos militares (e tem ainda um enorme arsenal nuclear). Disp\u00f5e ainda de uma produ\u00e7\u00e3o alimentar e energ\u00e9tica muito consider\u00e1vel, a qual tem sido usada como arma no conflito. Todavia, a Ucr\u00e2nia tem a suport\u00e1-la uma poderosa coliga\u00e7\u00e3o ocidental, quer a n\u00edvel militar (pa\u00edses da NATO), quer ao n\u00edvel econ\u00f3mico-financeiro (EUA, Uni\u00e3o Europeia, G7), embora sem envolvimento directo na guerra com soldados no terreno. Ao mesmo tempo, essa coliga\u00e7\u00e3o ocidental imp\u00f4s pesadas san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas \u00e0 R\u00fassia que a vulnerabilizam. At\u00e9 agora, o resultado de tudo isto tem sido largamente um impasse. No in\u00edcio, a R\u00fassia fracassou estrondosamente no intento de controlar toda a Ucr\u00e2nia. Mas a contra-ofensiva ucraniana deste ano, at\u00e9 agora, claramente n\u00e3o atingiu os objectivos de recupera\u00e7\u00e3o substancial de territ\u00f3rio, desde logo de voltar a isolar a Crimeia da R\u00fassia em termos de liga\u00e7\u00e3o terrestre, replicando os sucessos do final do Ver\u00e3o e Outono de 2022. Vem \u00e0 mente uma reflex\u00e3o do livro de Cathal Nolan de que a \u201cguerra&nbsp;ocorre sempre num miasma de conting\u00eancias\u201d, ou seja, est\u00e1 sujeita \u00e0 influ\u00eancia de m\u00faltiplos acontecimentos poss\u00edveis, mas incertos os quais podem alterar decisivamente o seu rumo. Quanto mais o conflito se prolongar, maior a possibilidade de estes influenciarem o rumo dos acontecimentos. Desde uma revolta na R\u00fassia contra Vladimir Putin at\u00e9 uma substancial quebra no apoio \u00e0 Ucr\u00e2nia por altera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nos EUA ou na Uni\u00e3o Europeia, muita coisa pode acontecer, ou n\u00e3o. Uma coisa \u00e9 certa: nesta longa guerra de atrito ambas as partes est\u00e3o a arrastar-se at\u00e9 ao abismo da exaust\u00e3o. Resta saber quem cair\u00e1 l\u00e1 primeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Jos\u00e9 Pedro Teixeira Fernandes, artigo originalmente publicado no P\u00fablico, 18\/09\/2023<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a9 Imagem: unsplash \/ RealpolitikMag<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. A guerra voltou \u00e0 Europa! Esta frase, dita in\u00fameras vezes ap\u00f3s o ataque da R\u00fassia \u00e0 Ucr\u00e2nia, traduz o enorme choque que gerou a invas\u00e3o de 24 de Fevereiro de 2022. 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